Por Diego Ribeiro/Globo Esporte
Peça-chave na busca do Palmeiras pela Libertadores, ele queria ser atacante e teve no grande rival uma decisão que mudou sua carreira - e o leva (de novo) ao Maracanã
Exausto, Weverton se agachou no gramado do Allianz Parque depois de trabalhar bastante na derrota por 2 a 0 para o River Plate, numa noite que só não foi desastrosa porque ele salvou o Palmeiras da eliminação e ajudou a colocar a equipe na final da Copa Libertadores.
Contra o Santos, sábado, às 17h (de Brasília), Weverton pisará no gramado do Maracanã como o goleiro mais valorizado do Brasil – consolidado aos 33 anos, campeão olímpico no mesmo estádio da final, convocado regularmente por Tite para a Seleção e voz ativa num elenco recheado de estrelas.
Nada disso, porém, aconteceria se Weverton tivesse seguido seu sonho de infância em Rio Branco, capital do Acre: ser atacante, inspirado em Ronaldo Fenômeno.
– Quando o conheci e o trouxe para o Juventus, ele me disse que também jogava de atacante. Tratei de tirar isso logo da cabeça dele. Ele veio com um biótipo talhado para ser goleiro, não tinha como querer se enfiar de atacante – conta Illimani Suares, técnico de Weverton no Juventus-AC e a quem o goleiro considera um pai.
Se não sofrer gols, Weverton vai atingir mais um degrau vitorioso na carreira que começou em sua terra natal, mudou de rumo após uma viagem de 3.600 quilômetros de ônibus a São Paulo e, ironicamente, teve no rival Corinthians um de seus momentos mais decisivos.
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A PRIMEIRA VIAGEM
Acostumado a brincar nas ruas de terra do bairro Bahia Velha, em Rio Branco, o menino Weverton Pereira da Silva gostava de fazer gols. Após jogar em campos de terra, chegava em casa sujo, às vezes machucado, mas convicto de que seria um artilheiro.
Antes de completar 13 anos, Weverton era atacante do Recriança, time de um projeto social de Rio Branco. Até o time se ver sem goleiro.
– Eu fui goleiro, na verdade, por acaso. A gente estava jogando um torneio de escolinha e eu era atacante. O goleiro faltou, perguntaram se eu poderia ir para o gol neste jogo, e eu fui. Tinha gente de clubes melhores lá na minha cidade e (falaram) "poxa, vamos fazer um teste lá no meu time, você foi bem aqui no gol". Eu falei "mas não sou goleiro". Falaram "não, vamos lá que acho que vai dar certo". Eu peguei e fui. Aí começou – disse Weverton, em entrevista ao ge em 2014, quando defendia o Athletico.
Quando Illimani Suares o viu, já debaixo das traves, não teve dúvidas sobre a vocação do garoto e o levou para a base do Juventus, onde passou por todas as categorias até subir para o profissional, ainda com 17 anos. A essa altura, as inspirações já eram outras: Marcos e Dida, goleiros campeões mundiais com a seleção brasileira.

No fim de dezembro de 2004, Weverton saiu do Acre pela primeira vez. Subiu em um ônibus para encarar os mais de 3.600 quilômetros até São Paulo, onde disputaria a Copa São Paulo de Futebol Júnior pelo Juventus e enfrentaria o Corinthians logo de cara.
Poucos dias depois, fechou o gol e viu o clube paulista arrancar uma vitória por 1 a 0 apenas no fim. Mais alguns dias, e o promissor goleiro já estava instalado no alojamento da base do Corinthians, no Parque São Jorge.
– A atuação dele foi maravilhosa, tanto que logo após o jogo, o Corinthians se interessou por ele e procurou por nós. Marcaram uma data para ele fazer um teste. Fui com ele, os 15 dias por minha conta, ia com ele todos os dias para o CT do Corinthians, acompanhei até a última hora. Ele ficou entre os três que passaram. A partir daí, passou a morar na república que tinha outros garotos do Corinthians. O início foi pesado – lembra Illimani.

O tutor voltou para o Acre. Weverton, depois de se acostumar à ausência da família, virou titular da base corintiana na Copinha de 2006 – ao lado de nomes como o meia-atacante Willian, hoje no Arsenal, com quem ainda mantém amizade e jogou junto na seleção brasileira.
No torneio, porém, viveu uma decepção: o hoje pegador de pênaltis foi sacado antes de uma decisão do tipo contra o Fortaleza, na segunda fase, após empate no tempo normal. Célio entrou no lugar dele, e o Timão acabou eliminado.
– Em uma conversa que tive com o treinador de goleiros, decidimos que, se a partida fosse para as penalidades, eu faria essa troca. A responsabilidade é toda minha – afirmou, à época, o técnico Jorge Saran.
Weverton engoliu a seco, não reclamou e continuou no clube por quase três anos.
A GRANDE DECISÃO
Era dezembro de 2008, e o Corinthians havia acabado de garantir o retorno à Série A do Brasileirão depois de um ano de reconstrução. Para 2009, a promessa de um grande time – com Ronaldo Fenômeno à frente de outras estrelas. Weverton era apenas o quarto goleiro, sem muita perspectiva de subir degraus. Queria jogar. E pediu para ser emprestado.
– E eu disse a ele na época: “Vai. Vai jogar, é um desperdício você hoje como está, ficar aqui como terceiro ou quarto goleiro do Corinthians” – lembra Mauri Lima, preparador de goleiros do Timão entre 2008 e 2018.
O quarto goleiro estava atrás de Felipe, Júlio César e do também recém-promovido Rafael Santos. Sem nenhum jogo pelo time do Parque São Jorge, Weverton só foi acionado em eventos do marketing do clube – como o lançamento de um carro de corrida da já extinta Superleague Fórmula.

– O Weverton naquela época estava subindo da base, iam dispensá-lo. Pedi que o deixassem e trabalhamos quase três anos juntos. É um profissional dedicado, que buscou a superação, pois precisava evoluir em algumas coisas e assim o fez. Foi deixado em uma condição de, quando saiu do Corinthians, ser titular em qualquer equipe – ressalta Mauri.
Último da fila e com potencial para explodir, viu em um empréstimo a chance de, enfim, poder jogar. O clube não se opôs e o cedeu ao Oeste, hoje de Barueri, mas na época ainda em Itápolis, interior de São Paulo.
Ainda que as primeiras rotas fora do Corinthians fossem cheias de obstáculos, a decisão se mostraria correta em poucos anos – além do Oeste, defendeu Remo (este em 2007), América-RN e Botafogo-SP, onde foi Campeão do Interior no Paulistão de 2010, chamou a atenção de outros clubes e viu as portas se abrirem para a elite do futebol nacional.

BARCELUSA
Em maio de 2010, Weverton tinha 22 anos e assinou contrato com a Portuguesa, onde ganhou destaque ao participar de um time que conquistou acessos no Paulistão e no Brasileiro e passeou na Série B de 2011 sob comando do técnico Jorginho, hoje no Figueirense.
Neste momento, já era conhecido por ser um goleiro de fundamentos muito bem treinados, reflexo apurado e tecnicamente impecável. Como Mauri havia antecipado, e como Illimani já sabia desde cedo em Rio Branco.
– Ele foi adquirindo todas as técnicas com o treinamento, que era feito comigo mesmo, de fundamentos, tudo. Muito sério e dedicado desde cedo. Sempre falava para ele que o goleiro é o primeiro que chega e último que sai do treino. Ele sempre foi esse cara – orgulha-se o primeiro técnico.
Weverton não era capitão, mas exercia liderança sobre o elenco rubro-verde e virou pilar de um elenco que ficou conhecido como Barcelusa, alusão, claro, ao Barcelona. Um imbróglio na renovação de contrato, porém, causou o afastamento dele em março de 2012. E a saída dois meses depois, em maio. Estava convicto de que era hora de pegar estrada novamente.

Nesse período, assinou pré-contrato com o Athletico-PR. No desespero, com a Lusa às portas de ser rebaixada novamente para a Série A-2 do Paulistão, Jorginho reintegrou o goleiro mesmo a poucos dias do fim do contrato. A Portuguesa caiu mesmo assim.
– Eu tive um papo com ele no vestiário, perguntei como estava a negociação. Disse que já tinha acertado com o Athletico, que estava indo embora. Tive que tomar uma decisão: será que ele ia jogar à vera? Coloquei o Rodrigo Calaça (reserva) para jogar. Infelizmente ele errou em um jogo, empatamos, e o Weverton voltou. Fiz questão que ele renovasse desde o fim de 2011, mas quando tentaram resolver, era tarde demais – afirmou Jorginho.
– Acho que eu não fui valorizado pelo clube da forma que eu merecia. Quando o Athletico me procurou, aí sim eles queriam me valorizar, mas já não tinha mais volta – ressaltou Weverton, na época de sua saída.
FURACÃO DE OURO
No Athletico, o roteiro foi parecido – mas com maior tempo e intensidade: chegou com o time na Série B, ajudou no acesso à elite ainda em 2012, virou capitão, melhor goleiro do Brasileirão de 2015 – pelo Troféu Armando Nogueira – e campeão paranaense em 2016, seu único título pelo clube rubro-negro em cinco anos e meio.
Mas é um período de menos de dois meses, entre agosto e setembro de 2016, que resume bem o furacão vivido por Weverton, digno do apelido do time que defendia.
Cotado desde o fim de 2015, ele viu sua primeira convocação para a Seleção ocorrer por outro acaso – tão improvável quanto um atacante se tornar goleiro. Fernando Prass, então titular do Palmeiras, sofreu fratura no cotovelo durante um treino na Granja Comary e acabou cortado. Jean, hoje no Atlético-GO, Jordi, ex-Vasco, e Alisson, titular da seleção brasileira, eram os suplentes na pré-lista montada pelo técnico Rogério Micale.