Imposição de restrições até duas semanas antes teria evitado 83% do total de vítimas fatais, segundo estimativas da Universidade de Columbia
NOVA YORK — Se os Estados Unidos tivessem começado a impor medidas de distanciamento social uma semana antes, em março, cerca de 36 mil pessoas a menos teriam morrido por causa do novo coronavírus, segundo novas estimativas da Universidade de Columbia. Os pesquisadores afirmam ainda que, se o país tivesse começado a adotar o isolmento em 1º de março, duas semanas antes, poderia ter evitado cerca de 83% das mortes, ou seja, 54 mil vítimas seriam poupadas.
Até agora, a pandemia já matou 93.400 pessoas nos EUA, e deixou mais de 1,5 milhão de infectados. Em cidades como Nova York, onde o vírus chegou cedo e se espalhou rapidamente, as ações restritivas foram tomadas tarde demais, avalia o grupo de pesquisadores.
— É uma grande, grande diferença — disse Jeffrey Shaman, epidemiologista da Universidade de Columbia e líder da equipe de pesquisa. — Esse pequeno espaço de tempo teria sido incrivelmente crítico na redução do número de mortes.
Em 16 de março, o presidente Donald Trump limitou as viagens, pediu que os americanos evitassem sair em grupos e que os alunos não frequentassem as aulas. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, fechou as escolas um dia antes, e o governador Andrew M. Cuomo, emitiu uma ordem de isolamento que entrou em vigor em 22 de março.
A equipe de Shaman modelou o que teria acontecido se essas mesmas mudanças tivessem ocorrido uma ou duas semanas antes e estimou a disseminação de infecções e mortes até 3 de maio nesse cenário. Em um comunicado divulgado na noite de quarta-feira, em resposta às novas estimativas, a Casa Branca reiterou a afirmação de Trump de que as restrições às viagens da China em janeiro e da Europa, em meados de março, atrasaram a propagação do vírus.
Em 9 de março, no entanto, enquanto países como a Itália e a Coreia do Sul já haviam começado a tomar medidas restritas agressivas contra a propagação do vírus, o presidente Trump resistia ao cancelamento de comícios de campanha ou a pedir que os americanos ficassem em casa.
“Nada vai fechar, a vida e a economia continuam”, tuitou o presidente à época, sugerindo que uma gripe era pior que o coronavírus. “Neste momento, existem 546 casos confirmados de coronaVirus, com 22 mortes. Pense sobre isso!”.
Hoje se sabe que dezenas de milhares de pessoas já haviam sido infectadas naquele momento. Mas a falta de testes em massa permitiu que as infecções passassem despercebidas, escondendo a urgência de um surto que a maioria dos americanos ainda identificava como uma ameaça estrangeira.
— As pessoas tendem a levar as restrições muito mais a sério quando a devastação de uma doença é visível — disse Natalie Dean, professora assistente de bioestatística da Universidade da Flórida, especializada em doenças infecciosas emergentes.
País com o maior número de infecções, os EUA começam a registrar uma queda nos novos casos, mas alguns estados ainda preocupam, o que ocorre em meio a medidas para a retomada das atividades socioeconômicas, hoje uma das prioridades de Donald Trump.
Os resultados da pesquisa mostram ainda que, à medida que os estados reabrem — todos os 50 estados diminuíram as restrições até quarta-feira — os surtos podem facilmente sair do controle, a menos que as autoridades monitorem de perto os infectados.
Todos os modelos são apenas estimativas e é impossível saber com certeza o número exato de pessoas que teriam morrido. Mas Lauren Ancel Meyers, epidemiologista da Universidade do Texas, em Austin, e que não participou da pesquisa, disse que “é um argumento convincente”.
— Mesmo ações tomadas um pouco antes em Nova York poderiam ter mudado o jogo. Isso implica que, se as intervenções tivessem ocorrido duas semanas antes, muitas mortes e casos da Covid-19 teriam sido evitados no início de maio, não apenas na cidade de Nova York, mas em todo os EUA.
Somente na área metropolitana de Nova York, 21.800 pessoas morreram até 3 de maio. Menos de 4.300 teriam morrido até essa data se medidas de controle tivessem sido implementadas e adotadas em todo o país apenas uma semana antes, em 8 de março, estimaram os pesquisadores.
Fonte: O Globo